Como entender aquele filosofo que escreve difícil?

Imagine uma situação, você vai numa livraria e acha na promoção o livro “Crítica da razão pura” de Immanuel Kant, você compra. E quando chega em casa começa a ler, mas não entende nada.

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Você não entende porque é burro? Não. Filosofia é muito complexa pra você? Não. Então por que você não consegue entender o livro de filosofia que você comprou na livraria?

Um dos motivos é que filósofos são (foram) pessoas que leram muitas obras de outros filósofos. Algumas vezes eles discordam do que um filósofo diz e começam a pensar no assunto, e decidem fazer um livro pra discordar desse filósofo e fazer argumentações e filosofias sobre o que discordaram.

No caso de Immanuel Kant, e o livro “Crítica da Razão Pura”, lá na introdução ele começa a falar sobre conhecimentos a priori, impressões…

E no segundo capítulo, ele continua nessa história de juízo a priori, conhecimento empírico, universalidade, até que ele escreve: “… pode bastar a proposição de que cada mudança tem uma causa. (…) o conceito de causa contém de tal modo o de necessidade de efeito e a rigorosa generalidade da lei, que desapareceria por completo se, como o fez Hume (…)”

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Aí você se pergunta Hume? O que é isso? Uma pessoa? E a resposta é: sim, é uma pessoa, mas não só uma pessoa. Hume é o filósofo David Hume. Então, Immanuel Kant está refutando uma teoria do filósofo David Hume, que está no livro “Investigação sobre o entendimento humano”.  Estou querendo dizer que você tem que ler esse livro antes da “crítica da razão pura”? Não….Sim, estou…

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Na verdade, você não precisa ler, porque Kant explica rapidamente o que é juízos a priori e empirismo e fala sobre os problemas desses conceitos. Mas se Kant está muito difícil de entender, eu aconselho ler o livro do David Hume, porque ele explica de um jeito muito fácil os conceitos que Kant rebate no livro “crítica da razão pura”.

Vou citar uma parte do que David Hume escreve e que Kant discorda até no fundo da alma:

“Portanto, se quisermos satisfazer-nos a respeito da natureza desta evidência que nos dá segurança acerca dos fatos, deveremos investigar como chegamos ao conhecimento da causa e do efeito.

Ousarei afirmar, como proposição geral, que não admite exceção, que o conhecimento desta relação não se obtém, em nenhum caso, por raciocínios a priori, porém nasce inteiramente da experiência quando vemos que quaisquer objetos particulares estão constantemente conjuntados entre si.” Investigação sobre o entendimento humano, David Hume.

Esse filósofo é conhecido por ser extremamente empirista (significa que tudo que a gente conhece vem de experiências). Ele diz “que as causas e os efeitos não são descobertos pela razão, mas pela experiência”, essa frase dele resume o que é empirismo.

Kant é contra esse empirismo radical, e são 200 páginas de argumentação do porque David Hume não está totalmente certo.

Momento desabafo do dia

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Ler filosofia é perda de tempo? Parece que David Hume e Immanuel Kant estão fazendo filosofia sobre algo inútil, não é?

Claro que não é inútil. Sabe por que? Tem um cientista famoso, que ele leu Kant aos 16 anos de idade, e essa leitura o influenciou muito, que ele até criou uma física nova. Sabe quem é esse cientista? Albert Einstein.

Kant dá uma base argumentativa muito forte sobre a existência de coisas que não podem ser provadas por experiência, ele usa o espaço e o tempo como exemplo. Uma das teorias de Einstein é sobre espaço-tempo, e a utilidade prática está nas tecnologias que você usa hoje. Sem Einstein não existiria metade dessas tecnologias.

Filosofia é inútil? Já imaginou se Einstein nunca tivesse lido Kant, ele nunca teria tido aquela confiança que fez ele criar uma teoria nova. Não sei nem se a gente teria smartphone hoje em dia, sem as teorias de Albert Einstein. Aquelas luzes que acendem “automaticamente” com certeza não existiria, foi ele que inventou isso….

Agora imagine o Isaac Newton sem filosofia, as leis de física dele foram escritas num livro que ele batizou de “Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural”. Não teríamos saído da idade média, ainda estaria buscando água no poço e usando luz de velas.

Mas o post é sobre como não se perder em filosofia e não sobre a utilidade da filosofia, que merece um post próprio.

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John Locke: Por que o homem escolhe viver em uma sociedade política?

No livro O segundo tratado sobre o Governo Civil, John Locke aborda os motivos que levam o homem a viver em sociedade e a escolher viver em um Estado.

Nessa parte, das razões do homem fazer isso, ele não difere tanto do que Thomas Hobbes fala, mas essa diferença existe. E ela está na forma que ele separa o homem em estado de natureza e em estado de guerra. Hobbes diz que o homem fora da sociedade, está sempre em estado de guerra. Mas para Locke, o homem na natureza só está em estado de guerra quando entra em disputas, e o estado de natureza é o homem vivendo sem leis, sem garantias de justiça e da propriedade de bens.

sociedade

Fonte da imagem: Curso de educação física – UNEB

Como no estado de natureza, o homem não possui garantias, e o julgamento humano no caso de uma controvérsia, costuma ser parcial. E existem indivíduos que se corrompem e cometem abusos e praticam crimes. Sem um Estado, com leis estabelecidas, existe o problema de como punir esse indivíduo, e quando a punição for aplicada ela deveria ser justa, mas os homens por causa de sentimentos de vingança, raiva etc costumam aplicar uma punição excessiva.

Então pra Locke e Hobbes os homens se unem em sociedade e escolhem viver sob a tutela de um governo para garantir sua própria preservação e ter uma convivência pacífica. Hobbes foca mais na parte pacífica e Locke na preservação do homem e seus bens.

É bom saber….

John Locke e Thomas Hobbes não definem o homem como sendo um ser mal e perverso por natureza. Eles são realistas quanto ao homem e seu comportamento, sabem que os humanos tem defeitos, que muitas vezes agem de acordo com interesses particulares, e podem ser corrompidos.

Os dois filósofos falam sobre Justiça, e não teria sentido eles falarem sobre esse assunto se considerassem que todos os homens são ruins e incontroláveis. Pois se assim fosse, não teria como criar um sistema de leis justas (mal e justiça é como ter ira e moderação ao mesmo tempo), e se todos fossem ruins por natureza, como acharíamos um juiz ou magistrado? Na verdade, nunca sairíamos do estado de guerra pra formar uma sociedade.

E é por isso que eu não estou usando o filósofo Rousseau para contra argumentar Thomas Hobbes. Porque aquela história de que o homem é bom por natureza e a sociedade que corrompe, não é realista.

E hoje em dia sabemos (através de estudos da psicologia e o avanço na área da psiquiatria) que não existe um homem totalmente bom ou totalmente mal (exceto psicopatas e sociopatas, mas Hobbes exclui eles do livro Leviatã quando diz que não consegue conceber alguém que sinta prazer na crueldade, ou seja, o psicopata).

A mente humana é muito complexa.

Claro que no futuro falarei sobre o filósofo iluminista Rousseau (assim que eu achar o livro dele que eu perdi).

Por que a tristeza tira nossa energia?

Quando alguma coisa nos deixa muito triste, ficamos desanimados e reclusos, mas por que?

tristeza

No nosso cérebro existem áreas* que são responsáveis pelos sentimentos, mas elas também fazem outras tarefas como por exemplo prestar atenção, processar informações que são relevantes em certos momentos, memória, controle do comportamento social.

Uma emoção forte sobrecarrega o cérebro, e sua capacidade de funcionamento fica comprometida. Por exemplo, num estado de extrema tristeza e com o raciocínio comprometido podemos ser presas fáceis de algum predador (humano ou animal) ou sofrer um acidente pela falta de atenção.

A natureza achou um jeito de resolver isso**, pessoas que estão muito tristes devem ser abrigadas pela família e protegidas. Como que isso acontece? Perdemos a energia e o animo pra sair de casa e se aventurar pelo mundo. Consequentemente, ficamos abrigados e protegidos, até o nosso cérebro voltar ao normal.

Estou falando de um estado de tristeza passageira e justificada. Como quando terminamos um relacionamento, ou quando alguém que amamos morre e ficamos tristes por um tempo, e é normal.

O prolongamento da tristeza é uma doença conhecida como depressão. Se a tristeza não diminuir com o tempo, procure ajuda de um psiquiatra. Depressão é doença e precisa de tratamento médico, não é frescura.

Observações:

*Estou sendo bem generalista, porque o sistema responsável  pelas emoções no cérebro é bem complexo.

**Como a natureza resolve as coisas? Não queira saber.

Perdão…

justi1Essa é uma palavra fácil de dizer mas difícil de por em pratica. O que é o perdão? Não fazer nada? Não, o perdão é deixar toda a raiva e magoa irem embora, se libertar do mal que alguém te causou e deixar o destino dessa pessoa “pra lá”.

Parece o mesmo que deixar alguém sair impune, não é? Não, porque a justiça verdadeira não pode ser posta em pratica por nós, as vítimas. A justiça é uma mulher vendada sentada numa cadeira, com uma espada numa mão e uma balança em outra.

Por que essa é a imagem da Justiça? Ela tem vendas pois seu julgamento é imparcial, a balança serve pra equilibrar a culpa do ato e a punição no mesmo peso. E a espada representa o poder de punir, e está levantada para mostrar que todos estão sujeitos ao poder da justiça. E por que é uma mulher?

Julgar atos é analisar emoções, atenuantes, agravantes, não pode ser fria em relação às causas e motivos, nem ignorar situações. E quem entende melhor de emoções e motivos do que a mulher?

Perdoar é um ato de libertação e está separado da Justiça pois as vítimas não são imparciais.

A justiça deve ser imparcial pois senão vira vinganca, e a vinganca tende a inflingir um castigo maior do que é justo e isso não é a mesma coisa que virar a pessoa que nos causou mal? Não somos mais vítimas nessa situação e sim infratores. E Viramos réus, até mesmo se for o contrário, dar um castigo menor que o justo, eh ser injusto e portanto virar um infrator.

O desequilíbrio na balança da justiça cria conflito e só o equilíbrio da justiça pode trazer a paz. E como a justiça corrigirá o mal causado e trará a paz, por que ficar remoendo algo que já passou e que você não será o juiz que punirá a pessoa e nem o agente que restaurará o equilíbrio?

Perdoar não é abrir mão da justiça, é libertar a mente.

*Imagem retirada do Pinterest.

**O assunto perdão e justiça são muito longos, farei mais postagens sobre o assunto.

Autores brasileiros: Graciliano Ramos

No Brasil existem bons autores, muito bons mesmo, e tem aqueles que querem que a gente ache “cult”. E tem outros autores que achamos ruins porque nos mandaram ler o livro errado. Um desses injustiçados se chama Graciliano Ramos.

Nas listas de vestibular, que eu tive que ler, tinha um livro dele bem chato e arrastado (principalmente pra quem tinha que ler uns 30 livros diferentes) que é São Bernardo. Li muito rápido e por cima, mas é que ele começa a ser preconceituoso e usa estereótipo (odeio, perco o interesse quando noto isso), daí, tipo, desisti dele e li o livro meio “por cima”. Mas aí vem Fuvest e pede outra obra dele, Vidas Secas.

Porém era uma época diferente, a fuvest é muito mais perto de dezembro do que os outros vestibulares ( que são em setembro e outubro) e como já tinha estudado toda a matéria, só restou a lista de livros pra ler. E comecei por Vidas Secas (minha opinião na época era, começo pelos livros mais chatos), e São Bernardo era chato então…raciocínio tosco, mas quem não tem?

Fiquei surpresa. Era outro Graciliano Ramos, com personagens complexos, situações difíceis e nada artificial. Sem estereótipos, nada de desgraça desnecessária, o livro se propõe a mostrar uma realidade desconhecida por muitos brasileiros. Apresenta um problema, mostra causas, e deixa no ar uma reflexão e até mesmo uma responsabilidade para nós, como sociedade, pra resolvermos esse problema.

Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é 4,5 estrelas. Só Shakespeare é 5 estrelas, pois só ele começa zoando estereótipos, e só ele tem a capacidade de parar uma história pra dizer “vc não é melhor que ninguém não. Eu tive que dizer o que é certo e errado, e vc aí se julgando moralmente superior” e ainda dar uma lição sobre o perdão numa história como Otelo (vc lendo, aí vem uma parte “deixa eu aproveitar e te dizer uma coisa importante, que cabe nesse contexto, e vai te ajudar na vida…”).

Porque gosto de Shakespeare…

(Eu sei, tô devendo o resto da história de Hobbes, mas é mais difícil fazer os desenhos do que falar…)

Eu disse num post anterior que não gostava de linguagem artificialmente rebuscada. Agora vou dizer o motivo: Shakespeare.

Existe muita controvérsia sobre a vida desse autor, mas não quero focar nisso, somente nas obras.

Bom, como toda boa maratonista de séries americanas (Supernatural, Vampire Diaries, The Game of Thrones etc etc) eu já ouvi falar da obra Macbeth. As crianças (nas séries) sempre estão encenando, um personagem fala que participou… em algum momento, falam de Macbeth… mas o que é? sobre o que fala? Dei uma googlada e achei uns resumos ruins, desisti de saber, então achei na feira de livro por um preço legal, e reservei na estante.

Mas a citação de Macbeth não para, aí resolvi ler. É uma peça de teatro do ano de 1500, aí pensei, já sei! Vou ler como se fosse do jogo Witcher 3, interpretado pelos amigos do Dandelion.

Anyway, tem que ser lida assim mesmo. Fiquei enrolando e nem disse o pq de eu odiar o rebuscamento e onde Shakespeare se encaixa..

Bom… aqui, em Macbeth. O autor começa a história falando sobre uma situação e aí aparecem as bruxas do destino( as moiras do Geralt), do jeito dele, aparece a explicação sobre elas, a personalidade e etc ( vc não precisa ter conhecimento prévio sobre isso)..

Vou dar um spoiler, numa parte da história Lady Macbeth (esposa de Macbeth) vai matar o rei enquanto ele dorme e olhe como, o autor escreve essa cena sangrenta:

” [Ouve-se o toque de um sino.]
Vou eu, e a coisa estará feita. Convida-me o sino. Que não o escutes, Duncan pois esse é um dobre fúnebre, que vem te chamar para o céu, ou para o inferno.”

Existem tantos jeitos de escrever isso. 
Romântico: “Ela puxou a adaga e segurou o pescoço de Duncan. Fez um corte de orelha a orelha que quase o decapitou. E o sangue jorrava pelas paredes, e seu vestido branco transformara-se em vermelho carmim”
Realismo: “A mulher virou uma fera bestial, mas com a delicadeza de um suave vento, fez um corte rápido enquanto o sangue escorria pelo pescoço de Duncan”

O jeito que Shakespeare escreveu a cena é rebuscado, sutil, cheio de decorações e enfeites. Porque ele vai descrever um ato horrível. Nem o sino, e os personagens (e discursos antes da cena fatídica) são enfeites, tudo está lá pra descrever “o indescritível”, tudo é necessário, essencial…

E a história, com a cena terrível, os personagens ambíguos, as bruxas, etc etc…são partes de uma obra que passa uma mensagem “você não pode justificar o injustificável, você não pode fugir de sua consciência. Eu sou o autor ‘universo’, sei de todas as intenções, todas as hipocrisias, não adianta argumentar comigo, porque sei a verdade.”

Por isso eu gosto de Shakespeare. Ele não faz uma história sem dar uma lição de vida, não coloca tags nos personagens.

E em Hamlet ele te joga (como leitor) na mesma moral e hipocrisia alheia, faz uma parada na história e diz: “estou te dizendo que tudo isso é errado, agora, e vc concorda, mas há 1 minuto atrás vc não via nada de errado na situação q eu descrevi. Eu tive que te dizer que era errado, vc não é melhor que ninguém, então baixe a bola e desça do pedestal Sr. Moralidade” (claro que de um jeito mais poético, mas a mensagem é essa).

E eu sei que existem obras creditadas a Shakespeare, que jorram sangue, mas não creio que seja dele. Por que mesmo um escritor em começo de carreira possa escrever livros ruins, o enfoque dele é mais no sarcasmo e ironias, sim as histórias são “sangrentas”, mas além dele ser sutil, a grande assinatura dele é a ironia. Uma história ruim, teria ironias ruins.