Resenha: Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum

O título faz justiça ao livro, o autor inicia a história fazendo um retrato tátil, colorido e as vezes até perfumado do cenário em que o personagem narrador se encontra, no primeiro capítulo, esse lugar é uma casa. Os detalhes são tantos que se eu soubesse desenhar faria um desenho ou pintaria um quadro e ele ficaria assim:

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Autor: Ricardo Ardente*

Seria uma imagem bem vivida, e ainda teria a descrição do interior da casa, que teria esses objetos:

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Símbolos que mostram que o lugar tem decoração com traços orientais.

Depois vem devaneios sobre estar num lugar na Europa.

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Conforme a história do livro se desenrola, percebemos que estamos lendo uma série de relatos sem cronologia. Vamos descobrindo ao longo do segundo capítulo que se trata de uma narradora mulher, e que ela está direcionando suas histórias a um personagem chamado Emilie, que descobrimos ser a mãe adotiva da narradora.

Vários personagens são inseridos ao longo da narrativa, descobrimos que a Emilie morreu.

É por essa frase abaixo que descobrimos a morte de Emilie.

“- Sabes que nunca precisei deles, mas Emilie…como podia viver sem ela?”

E que esta estava obcecada por um relógio, então a narradora vai inserindo diversas tramas em que o tal relógio aparece. 

Também ficamos sabendo que a família tem uma loja chamada Parisiense, e que mais de um personagem, nesse caso o tio Hakim, assumem a narrativa.

Aliás, essa é a constante durante o livro, a narração troca de narrador, embora a principal seja a tal filha adotiva da Emilie. Conforme os relatos vão surgindo, notamos que vários personagens retornam de algum lugar que estavam a algum tempo, como se estivessem exilados.

E essa tônica do exílio faz com que cada história ganhe um ar de nostalgia, relembrando os momentos em que os personagens estavam felizes no lar, claro que há lembranças tristes como a morte de uma menina surda muda, filha da irmã da narradora. E também em alguns momentos fica subentendido uma busca de identidade pelos personagens.

A narradora remexe em objetos do passado, como cartas, e assim vamos descobrindo histórias, como a causa da morte do irmão de Emilie, o Emir, e para explicar isso, somos apresentados a mais uma pessoa, o fotógrafo alemão Gustav Dorner, que é uma espécie de jornalista, escreve sobre o comportamento dos amazonenses, e ainda faz umas anotações, desenhos e guarda fotos.

Dorner conta ao tio Hakim o que aconteceu, e este conta a narradora através de uma carta que é lida por ela, e consequentemente por nós. Ficamos sabendo que Emir se suicidou.

É bom frisar que a história se passa no Amazonas, na cidade de Manaus, e que a família da qual é retratada no livro, emigrou do Líbano.

Sobre o suicidio de Emir, é levantada a hipótese dele ter feito isso porque no passado antes de embarcar no navio que o levaria ao Brasil, ele era apaixonado por uma mulher e por causa dela ele não queria partir para nosso país, então pra resolver esse problema, Emilie sugere a um outro irmão, Emílio, que denuncie Emir a polícia, e então ele é embarcado a força para o Brasil. Emir nunca perdoou Emilie por ter feito isso.

Existe outra personagem, Hindié da Conceição, que conversa com a narradora, e partir dessas conversas ficamos sabendo da infância da misteriosa narradora.

Por fim, a narradora finalmente conta um pouco sobre sua vida, e ficamos sabendo que ela estava passou um tempo internada numa casa de repouso, e durante esse momento ela escreveu um texto que sem saber definir o gênero ela chama então de relato.

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O livro é uma colcha de retalhos bem costurada, os relatos não servem como lição de vida, e nem existe uma “moral da história”. Pra quem gosta de se distrair lendo enredos familiares e  detalhistas, o livro é uma boa pedida.

Quem é o autor?

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Milton Hatoum, é um escritor, tradutor e professor radicado em São Paulo. Nasceu em Manaus em agosto do ano 1952, estreou sua carreira como escritor com a obra Relatos de um certo Oriente, sobre essa obra ele disse:

“No Relato de um certo Oriente há um tom de confissão, é um texto de memória sem ser memorialístico, sem ser auto-biográfico; há, como é natural, elementos de minha vida e da vida familiar. Porque minha intenção, do ponto de vista da escritura, é ligar a história pessoal à história familiar: este é o meu projeto. Num certo momento de nossa vida, nossa história é também a história de nossa família e a de nosso país (com todas as limitações e delimitações que essa história suscite).”**

Já ganhou três prêmios Jabutis, e é considerado um dos melhores escritores ainda vivos.

 

Referências:

*https://betomelodia.blogspot.com/2015/06/ricardo-ardente-impressionismo-espatulada-pintores-artes-plasticas-brasileiras-brazilian-painters-artists-art.html

**https://pt.wikipedia.org/wiki/Milton_Hatoum

*Se você tem alguma sugestão de tema? ou quer expor sua arte aqui? Ou um texto? Entre em contato por e-mail: culturalizando.b@gmail.com 

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