Maquiavel é incompreendido?

“Os fins justificam os meios.” Essa frase atribuída a Nicolau Maquiavel não foi escrita por ele.  Mas antes de falar sobre o que ele disse e o que não disse, vamos conhecer primeiro essa pessoa tão polêmica.

Quem foi Maquiavel?

Nicolau Maquiavel, nasceu em 1469 na cidade de Florença na Itália. Foi filósofo, historiador, diplomata e poeta. É reconhecido como o primeiro que escreveu sobre filosofia política, pois ele escreveu sobre esse assunto usando o pensamento pragmático e não romantizado. Com linguagem clara, ou como ele diz na obra O Príncipe:

“E este livro, eu não o enfeitei nem sobrecarreguei com longos períodos, com palavras sonantes e empoladas, nem com algum outro arrebique ou ornamento amaneirado com os quais muitos adornam suas obras: por meu intento ou nenhum mérito distinguirá meu livro, ou apenas a novidade de sua matéria e a sua gravidade o farão lograr boa acolhida.”

Por que seu nome virou sinônimo da palavra diabólico?

Justamente por não ter enfeitado suas obras e muito menos amenizado a realidade e a forma prática de lidar com as coisas da vida de quem está no poder, ele é mal interpretado.

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Pensa num político aleatório, Getúlio Vargas, por exemplo. Descreva como ele chegou ao poder, que troca de favores políticos aconteceu, o golpe do Estado Novo, a mentira contada pra justificar a ditadura…. É o que Maquiavel faz, ele descreve como conquistar um principado, o que fazer com o povo desse principado, como negociar com as elites que existiam antes, ou seja, como se manter no poder.

E no caso que eu citei, o que ele disse pra fazer com o povo, Maquiavel fala pra trazer colonos do lugar de origem do Príncipe, e misturar com o restante da população, que logo todos iam aceitar o novo Príncipe, por exemplo.

Mas ele escreve coisas controversas.

Coisas polêmicas escritas por Maquiavel na obra “O Príncipe”.

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Capitulo IV – O filósofo discorre sobre como seria conquistar o Império Turco (século XV). Segundo ele, esse império tem forças internas coesas, não dá pra desestabilizar do jeito que tentavam fazer em Game of Thrones, tem que ter um exército forte e atacar. Depois de vencer o exército turco, a única coisa que pode por em risco a conquista do Príncipe é a dinastia do soberano cujo império foi conquistado. Ou seja, liquidar todo mundo dessa dinastia.

Capítulo V – Quando o Príncipe conquistasse um lugar com o regime político de república, o povo teria muito ódio pela liberdade perdida. Então o jeito seria arrasa-las ou habitá-las.

Capítulo VI- Quando um profeta assume o poder, ele não pode depender somente da fé das pessoas , tem que ter armas pra quando esse povo ficar descrente, “possa-se fazê-los crer a força”.

Fazendo Juízo de valor: o que é certo ou errado.

Até o capítulo VII, Maquiavel descreve as ações do Príncipe mas não faz nenhum juízo de valor. Ele ainda não disse o que é certo ou errado, só fala pra fazer isso você tem que fazer aquilo. Chegando no Capítulo VIII -intitulado: Dos que se fizeram príncipes à mercê das suas atrocidades, a coisa muda um pouco.

O filósofo inicia o capítulo descrevendo um homem que não era rico e que estava obstinado em virar príncipe. Ele diz que o homem traiu seus amigos, assassinou seus concidadãos, renegava a fé, a religião e a piedade, em resumo, ações não virtuosas.
“Por esses meios pode-se conquistar o poder mas não a glória. (…)as suas selvagens crueldade e desumanidade – origem de incalculáveis atrocidades – não nos permitem incluí-lo entre os notáveis homens que celebrizamos. Que não se impute, pois, à fortuna ou à virtude as conquistas que realizou sem uma e sem a outra.”

No restante do livro, Maquiavel vai falar sobre que tipo de exército é o ideal, sobre a cobrança de impostos. Então chegamos no capítulo mais famoso, aquele que contém a frase: “É preferível ser temido do que amado”.

Capítulo XVII – Da crueldade e da piedade, e se é melhor ser amado do que temido ou o contrário.

No começo do capítulo ele diz que todo o príncipe deve desejar ser tido por piedoso e não por cruel. Mas que não deve fazer mau uso dessa piedade. Ele cita Cesare Borgia, uma situação que ocorreu com ele. Borgia mandou destruir uma cidade italiana e ganhou fama de cruel. Porém Maquiavel alerta que muitas vezes o fato de não tomar uma ação quando esta deve ser tomada pode levar ao caos que resulta em mais mortes.

Sobre ser temido ou amado, se tiver que escolher um dos dois, o príncipe deve ser temido, segundo o filósofo “os homens têm menos receio de conspirar contra aquele que se faz estimar que contra aquele que se faz temer”. Mas isso não significa que o Príncipe deva ser odiado, é possível ser temido e não ser odiado ao mesmo tempo. É só não atentar contra seus súditos e saber a hora certa de agir.

Não cumpra promessas, não fale a verdade, seja conivente, mude de opinião.

estrategia
Ter estratégia.

Em outro capítulo Maquiavel fala sobre uma tática muito usada pelos políticos hoje em dia. O Príncipe só deve cumprir uma promessa que convém, pois, como diz o autor da obra, os homens são pérfidos, e que se estivesse no lugar do soberano fariam a mesma coisa.

O príncipe deve sempre estar disposto a mudar de opinião e de postura. Maquiavel diz isso nessas palavras: “Deve, portanto (…) tomar todo o cuidado(…) para que não saiam palavras que não esteja perfeitamente coadunadas*, (…)parecer(…) de todo misericordioso, sincero, íntegro, humanitário, de todo religiosos.” Ser religioso é a qualidade mais indispensável de todas.

Afastar-se de tudo que pode fazer o Príncipe ser desprezível e odiável, e boas ou más, ações, dependendo de cada caso, podem angariar ódio.

Para ser benquisto deve se fazer grandes ações. Na escolha de ministros é melhor optar por um que esteja mais preocupado com o Príncipe do que com ele mesmo. Como escapar de aduladores**.

E por fim ele termina sua obra dizendo o porque os príncipes perderam seus estados. E faz uma exaltação pela libertar a Itália dos bárbaros.

Maquiavel é incompreendido?

Sim, no sentido de que a obra “O Príncipe” tem a finalidade de ser uma espécie de guia político. Claro que ele diz muita coisa polêmica, e de um jeito frio. Mas eu só resumi parte do livro, Nicolau Maquiavel sempre coloca exemplos de soberanos que fizeram o que ele está dizendo que tem que ser feito e obtiveram sucesso.

Na verdade Maquiavel, como o historiador que era, estudou os líderes do passado, as ações de cada um, qual foi a consequência dessas ações, e escreveu esse manual das coisas que deram certo.

Pressupõem-se que o filósofo sabia que sua obra teria muita repercussão, pois ela só foi publicada cinco anos após a morte dele. Maquiavel estava certo sobre o impacto que “O Príncipe” teve no mundo ocidental.

 

*Coadunadas: em harmonia

**Aduladores: puxa-saco

 

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