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Autores brasileiros: Graciliano Ramos

No Brasil existem bons autores, muito bons mesmo, e tem aqueles que querem que a gente ache “cult”. E tem outros autores que achamos ruins porque nos mandaram ler o livro errado. Um desses injustiçados se chama Graciliano Ramos.

Nas listas de vestibular, que eu tive que ler, tinha um livro dele bem chato e arrastado (principalmente pra quem tinha que ler uns 30 livros diferentes) que é São Bernardo. Li muito rápido e por cima, mas é que ele começa a ser preconceituoso e usa estereótipo (odeio, perco o interesse quando noto isso), daí, tipo, desisti dele e li o livro meio “por cima”. Mas aí vem Fuvest e pede outra obra dele, Vidas Secas.

Porém era uma época diferente, a fuvest é muito mais perto de dezembro do que os outros vestibulares ( que são em setembro e outubro) e como já tinha estudado toda a matéria, só restou a lista de livros pra ler. E comecei por Vidas Secas (minha opinião na época era, começo pelos livros mais chatos), e São Bernardo era chato então…raciocínio tosco, mas quem não tem?

Fiquei surpresa. Era outro Graciliano Ramos, com personagens complexos, situações difíceis e nada artificial. Sem estereótipos, nada de desgraça desnecessária, o livro se propõe a mostrar uma realidade desconhecida por muitos brasileiros. Apresenta um problema, mostra causas, e deixa no ar uma reflexão e até mesmo uma responsabilidade para nós, como sociedade, pra resolvermos esse problema.

Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é 4,5 estrelas. Só Shakespeare é 5 estrelas, pois só ele começa zoando estereótipos, e só ele tem a capacidade de parar uma história pra dizer “vc não é melhor que ninguém não. Eu tive que dizer o que é certo e errado, e vc aí se julgando moralmente superior” e ainda dar uma lição sobre o perdão numa história como Otelo (vc lendo, aí vem uma parte “deixa eu aproveitar e te dizer uma coisa importante, que cabe nesse contexto, e vai te ajudar na vida…”).

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Porque gosto de Shakespeare…

(Eu sei, tô devendo o resto da história de Hobbes, mas é mais difícil fazer os desenhos do que falar…)

Eu disse num post anterior que não gostava de linguagem artificialmente rebuscada. Agora vou dizer o motivo: Shakespeare.

Existe muita controvérsia sobre a vida desse autor, mas não quero focar nisso, somente nas obras.

Bom, como toda boa maratonista de séries americanas (Supernatural, Vampire Diaries, The Game of Thrones etc etc) eu já ouvi falar da obra Macbeth. As crianças (nas séries) sempre estão encenando, um personagem fala que participou… em algum momento, falam de Macbeth… mas o que é? sobre o que fala? Dei uma googlada e achei uns resumos ruins, desisti de saber, então achei na feira de livro por um preço legal, e reservei na estante.

Mas a citação de Macbeth não para, aí resolvi ler. É uma peça de teatro do ano de 1500, aí pensei, já sei! Vou ler como se fosse do jogo Witcher 3, interpretado pelos amigos do Dandelion.

Anyway, tem que ser lida assim mesmo. Fiquei enrolando e nem disse o pq de eu odiar o rebuscamento e onde Shakespeare se encaixa..

Bom… aqui, em Macbeth. O autor começa a história falando sobre uma situação e aí aparecem as bruxas do destino( as moiras do Geralt), do jeito dele, aparece a explicação sobre elas, a personalidade e etc ( vc não precisa ter conhecimento prévio sobre isso)..

Vou dar um spoiler, numa parte da história Lady Macbeth (esposa de Macbeth) vai matar o rei enquanto ele dorme e olhe como, o autor escreve essa cena sangrenta:

” [Ouve-se o toque de um sino.]
Vou eu, e a coisa estará feita. Convida-me o sino. Que não o escutes, Duncan pois esse é um dobre fúnebre, que vem te chamar para o céu, ou para o inferno.”

Existem tantos jeitos de escrever isso. 
Romântico: “Ela puxou a adaga e segurou o pescoço de Duncan. Fez um corte de orelha a orelha que quase o decapitou. E o sangue jorrava pelas paredes, e seu vestido branco transformara-se em vermelho carmim”
Realismo: “A mulher virou uma fera bestial, mas com a delicadeza de um suave vento, fez um corte rápido enquanto o sangue escorria pelo pescoço de Duncan”

O jeito que Shakespeare escreveu a cena é rebuscado, sutil, cheio de decorações e enfeites. Porque ele vai descrever um ato horrível. Nem o sino, e os personagens (e discursos antes da cena fatídica) são enfeites, tudo está lá pra descrever “o indescritível”, tudo é necessário, essencial…

E a história, com a cena terrível, os personagens ambíguos, as bruxas, etc etc…são partes de uma obra que passa uma mensagem “você não pode justificar o injustificável, você não pode fugir de sua consciência. Eu sou o autor ‘universo’, sei de todas as intenções, todas as hipocrisias, não adianta argumentar comigo, porque sei a verdade.”

Por isso eu gosto de Shakespeare. Ele não faz uma história sem dar uma lição de vida, não coloca tags nos personagens.

E em Hamlet ele te joga (como leitor) na mesma moral e hipocrisia alheia, faz uma parada na história e diz: “estou te dizendo que tudo isso é errado, agora, e vc concorda, mas há 1 minuto atrás vc não via nada de errado na situação q eu descrevi. Eu tive que te dizer que era errado, vc não é melhor que ninguém, então baixe a bola e desça do pedestal Sr. Moralidade” (claro que de um jeito mais poético, mas a mensagem é essa).

E eu sei que existem obras creditadas a Shakespeare, que jorram sangue, mas não creio que seja dele. Por que mesmo um escritor em começo de carreira possa escrever livros ruins, o enfoque dele é mais no sarcasmo e ironias, sim as histórias são “sangrentas”, mas além dele ser sutil, a grande assinatura dele é a ironia. Uma história ruim, teria ironias ruins.