O mundo cruel do K-Pop

O fenômeno do K-Pop hoje em dia pode ser igualado ao fenômeno do Dance Pop do início dos anos 2000. Na verdade a fórmula de recrutamento para esses grupos é quase parecida com a utilizada para recrutar garotas para ao que viria a ser posteriormente as Spice Girls, ou recrutar homens para os Backstreet Boys e N’Sync.

Existe uma diferença na forma que os grupos de dance pop evoluíram para os grupos de K-Pop, no caso específico das Spice Girls, quando elas foram recrutadas não gostaram de como a agência estava conduzindo a carreira delas, e elas separaram em um grupo independente que conseguiu o apoio de grandes produtores que as levaram para a gravadora Virgin Records.

Spice Girls.

Como eu disse em outro post sobre as Spice Girls, o grupo tem uma certa independência chegando até a discordar sobre a música de estreia que a gravadora queria e colocar outro single no lugar (A substituição de Love Things por Wannabe). E as Spice Girls rodaram o mundo, viraram ícones da música pop. Isso também aconteceu com os Backstreet Boys que depois romperam com o primeiro empresário e substituíram por outro.

No K-Pop existe esse recrutamento, e depois uma fase de treinamento, no caso das Spice Girls e Backstreet Boys foi um treinamento prévio de até um ano e o lançamento no mercado. Porém no K-Pop a fase de treinamento pode durar anos, e a pessoa recrutada pode nem ser escolhida para fazer parte de um grupo de K-Pop posteriormente. A fórmula usada é praticamente a mesma para todo grupo de K-Pop, eles montam um grupo de 5, 6 ou 7 pessoas (existem grupos com mais de 20 pessoas), treinam por anos os artistas que eles consideram que tem potencial, e um ídolo perfeito sai dessa forma montada por essas agências de artistas coreanas.

Grupo NCT, com quase 20 membros, saindo para gravar em 2018.

Ao contrário do que aconteceu no caso das Spice Girls, os grupos de K-Pop não são grupos que podem se desvincular de seus agentes tão facilmente. Não tem a mesma liberdade criativa do que o dance pop possuía. É quase inimaginável pensar que o caso da Geri Halliwell se repetiria na indústria do K-Pop, um membro que deixa o grupo não pode retornar mesmo anos depois ao grupo, não existe esse espaço para arrependimento.

Turnê de retorno das Spice Girls, com a Geri Halliwell (canto à direita) de volta ao grupo.

Um dos motivos para haver essa diferença está no fato da indústria do K-Pop estar saturada. Existem vários grupos, várias músicas que são lançadas todos os anos, então, a lógica é que se o artista não se adequa aos moldes da indústria pode ser facilmente substituído ou o grupo pode seguir sem ele. Também os membros de um grupo de K-Pop assinam contratos longos e rígidos em que eles tem que produzir e cumprir metas.

No recrutamento várias pessoas são selecionadas para passar anos treinando na esperança de um dia fazer parte de algum grupo. Eles são recrutados muitas vezes quando ainda são crianças de 9 ou 10 anos de idade. Ter um exército de treinees como uma reserva de pessoas que podem ser “debutadas” a qualquer momento, trás uma grande vantagem para os empresários dessa indústria, pois eles sabem que se o mercado começar a querer um estilo musical específico eles terão um banco de pessoas para escolher, colocar num grupo, lançar uma música e faturar muito dinheiro.

Esta fábrica de ídolos de K-Pop rende bilhões de dólares por ano, sendo uma das maiores “coisas” que a Coreia do Sul exporta ao ocidente. O grupo de K-Pop sul coreano, BTS tem um faturamento astronômico, chegando a influenciar no PIB da Coreia do Sul.

BTS. (Pinterest)

Pegar uma criança, treinar ela por anos em danças e canto não faz com que essa criança quando adulta amadureça psicologicamente, e jogar ela nos holofotes acaba sendo prejudicial para essa pessoa. Vamos pegar o caso da Britney Spears, que começou no clube da Disney quando tinha 12 anos e aos 17 anos lançou Baby One More Time que foi um sucesso mundial instantâneo, aos 26 anos (2007) ela acabou surtando diante de todos, da mídia e dos fãs.

Surto de Britney Spears em 2007.

O mercado de celebridades americano é um pouco mais flexível em relação ao ídolo pop do que o coreano, pois mesmo após a Britney ter surtado e depois se recuperado, ela ainda retornou aos palcos. Na época desse surto a mídia americana ainda fez uma mea-culpa dizendo que a cantora fez sucesso muito nova, os paparazzi ficaram muito em cima dela, que as pessoas foram muito críticas em relação a ela. Na época saiu uma campanha “Leave Britney Spears Alone”(Deixem a Britney Spears em paz). Não há esse tipo de tolerância em relação aos ídolos do K-Pop.

Britney Spears se apresentando em 2016, quase 10 anos após seu colapso mental.

Este excesso de treinamento, a pressão sobre os ídolos do K-Pop tem um resultado muitas vezes catastróficos, basta lembrar que vários ídolos do K-Pop cometeram suicídio. Mas pior do que ter um artista que se suicidou é a reação da agência em relação a esse fato, houve casos em que o artista que morreu foi apagado das fotos, da biografia, de tudo, como se nunca tivesse existido.

No ano de 2017 um membro do grupo de K-Pop coreano SHINee, Kim Jong-hyun cometeu suicídio, e houve uma tentativa de apagamento desse trágico episódio por parte da SMTOWN, a agência que recrutou Kim Jong-hyun.

Kim Jong-hyun

Um exemplo de um grupo de K-Pop formado por adolescentes de 14 a 15 anos foi o KARA, que fizeram seu debut em 2007.

Kang Ji Young, membra mais nova do grupo KARA que debutou em 2007 com apenas 14 anos.

Um dos motivos de se formar grupos de K-Pop com pessoas tão jovens é ter um maior controle sobre o ídolo do grupo do momento. E no caso de um grupo formado por homens, uma das razões é o alistamento obrigatório ao exército que tem que ser feito até os 28 anos de idade. Alguns membros do BTS podem ter esse destino a partir de 2020.

Grupo de K-Pop BTS.

Alguns desses ídolos do K-Pop, após o longo contrato terminar, acabam se lançando em carreiras solo numa tentativa de conseguir maior liberdade criativa. Infelizmente casos de sucesso em que um artista deixa um grupo e tenta carreira solo são raros. No ocidente podemos contar nos dedos quais artistas conseguiram a mesma ou até mesmo maior fama do que quando estava no grupo de origem. É o caso da Beyoncé, que deixou o grupo Destiny Child e se lançou em carreira solo.

Beyoncé, Coachella. (Pinterest)

Não é muito comum os empresários por trás do fenômeno do K-Pop lançarem artistas solo, mas em alguns casos raros isso acontece. É o caso da cantora sul coreana Kwon Bo-ah, conhecida como BoA. Ela foi descoberta pela SM Entertainment, treinou por dois anos dança, canto e japonês e foi lançada no mercado asiático, inclusive no Japão, uma música dela está presente no quarto encerramento do Anime Inuyasha.

BoA aos 13 anos de idade.

BoA conquistou a Coreia do Sul, Japão e China. Sendo um caso raro na indústria do K-Pop. Sua trajetória como cantora mostra o porque da indústria do K-Pop preferir grupos à cantores solo. BoA, graças a sua enorme fama, consegue ter algum controle criativo sobre sua carreira.

BoA em 2012 (Imagem retirada da Wikipedia: http://www.idol-story.com/)

Embora a fórmula da indústria do K-Pop funcione e traga um retorno financeiro expressivo, é preciso lembrar de que não estamos falando de objetos, os artistas são seres humanos, cheios de falhas, defeitos, e que precisam de descanso. Esta indústria precisa parar de colocar pessoas em situações extremas.

Cenas como estas vistas no vídeo acima precisam parar de acontecer, o suicídio de ídolos do K-Pop precisam parar de acontecer.

Referências:

https://www.bloomberg.com/news/features/2019-11-06/k-pop-s-dark-side-assault-prostitution-suicide-and-spycams

https://steemit.com/kpop/@pomeline/the-dark-side-of-the-k-pop-industry-and-why-it-needs-to-change

2 comentários em “O mundo cruel do K-Pop

  1. “Catching a child, training him for years in dancing and singing does not cause that child to mature psychologically, and throwing him in the spotlight ends up being harmful to that person.”

    Reminds me in some respects of Michael Jackson and his family.

    Curtido por 1 pessoa

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