A Virtude, segundo a filosofia

Platão criou o conceito de Virtude, que, para ele, é um dom que torna as pessoas boas, honestas, justas e aptas a adquirir sabedoria e seria algo inato. E o mundo estaria dividido entre pessoas virtuosas e as não virtuosas.

solidariedade
Pessoas virtuosas seriam assim. Imagem: pixabay

As pessoas virtuosas seriam recompensadas, possuiriam riquezas, seriam capazes de realizar grandes conquistas, viveriam uma vida melhor e mais confortável. Enquanto as pessoas não virtuosas estariam condenadas a pobreza, uma vida dura, e miserável.

O problema desse raciocínio de Platão é que ele considera a vida justa. E se isso fosse verdade, Sócrates não teria sido condenado a morte por causa de uma injustiça.

Aristóteles quando começa a falar sobre Virtude, vai além do conceito de Platão e cria divisões, ou seja, a virtude de obedecer, a de mandar, ter honra, coragem, bom caráter, justiça etc. Todos teriam essas virtudes, mas em graus diferentes. As mulheres e escravos teriam menos a virtude honra, coragem, e mais a virtude de obedecer.

O filósofo cria essas categorias, porque quando Platão divide o mundo entre virtuosos e não virtuosos, existe um problema. Se um escravo não é virtuoso, então ele não obedeceria o seu senhor, e o mesmo aconteceria com a mulher. Não é o que Aristóteles observa no mundo real, os escravos e mulheres são submissos e cumprem seus deveres, então como poderiam não ter virtude?

A partir desse momento existe a Virtude superior, que seria ter honra, caráter, coragem, ser bom e justo, no estilo de Platão. E a virtude necessária para ser submisso. Aristóteles não considera a vida justa, ele tenta justificar as injustiças da vida como algo imposto pela natureza.

Na sua obra A Política, Aristóteles quer abordar a política, formas de governo, cidadania, economia, e não a desigualdade social.

Onde está o erro em criar a Virtude como algo da natureza e que determina quem será rico ou pobre, livre ou escravo, homem ou mulher etc?

A vida é injusta, e a natureza não escolhe, e se escolhesse não usa os critérios imaginados por Aristóteles e Platão.

Qual é a consequência desse conceito de virtude para a história ocidental, principalmente na Europa?

Os poderosos, membros do clero e da nobreza, eram tidos como pessoas especiais, incapazes de cometer injustiças. E os pobres, plebeus, deveriam se contentar com a situação degradante em que viviam.

Depois da queda do Império Romano do Ocidente, surge o feudalismo, e a Igreja detém o poder ideológico na Idade Média. Primeiro usam os conceitos de Platão, de uma forma adaptada, pra justificar a estrutura social e as injustiças.

Ou seja, porque servos eram servos, porque o Senhor feudal tinha uma vida melhor, porque existia a nobreza, porque não podiam questionar o rei e muito menos a Igreja.

Quando a ideologia da Igreja é amplamente aceita, e algumas cidades na Europa começam a prosperar, aparece alguns problemas filosóficos pra responder. As ideias de Aristóteles serão necessárias e vão ser utilizadas pela Escolástica.

Platão e Aristóteles possuem uma diferença fundamental. Platão odeia a democracia e vê o mundo de forma dualista: virtuosos e não virtuosos. Aristóteles é um pouco mais realista e analisa as três formas de governo, apesar de não derrubar essa ideia de Virtude criada por Platão. As análises (lúcidas) que ele faz sobre alguns assuntos, terão influência nos filósofos que vão surgir e derrubar essa história de rei virtuoso. Thomas Hobbes lê as obras de Aristóteles, Maquiavel vai sentir na pele a suposta virtude dos poderosos, quando ele convive com César Bórgia.

E o legado mais importante começado por Platão e finalizado por filósofos como Maquiavel, Thomas Hobbes e afins. É a seguinte ideia: Os ricos não são melhores, honestos ou mais inteligentes que os pobres. E achar que riqueza ou pobreza fazem alguém ter um bom caráter é bobagem.

“A riqueza não trás virtude” Sócrates. Por falar em Sócrates, o mestre de Platão, e indiretamente de Aristóteles. O que ele achava sobre o assunto?

Para Sócrates a “Virtude” estava em todos os seres, e era em igual quantidade, tanto no homem quanto na mulher.(1)

(1)A Política, Aristóteles, livro primeiro, capítulo 4, parágrafo 13. “Nem o temperamento, nem a coragem, nem a justiça devem ser iguais no homem e na mulher, como acreditava Sócrates.” ….traduzindo para o popular…”as coisas não são como Sócrates achava que eram.”

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