Bestiários: como os antigos catalogavam animais

Nos dias de hoje, quando queremos saber sobre qual é a aparência de um animal, nós recorremos ao Google. É só digitar uma pergunta e o mecanismo de busca mostra diversos sites com essas informações, e também mostra as imagens. Mas e no século X? Como as pessoas saberiam a aparência de Leão, sem ter visto um? Uma das formas de saber isso, sem ter passado pela experiência de encarar frente a frente um Leão, era através de um desenho, uma descrição oral ou escrita. Justamente nesse contexto é que surgem os bestiários medievais.

Porém, antes do aparecimento desses bestiários propriamente ditos, os primeiros cristãos criaram o Physiologus, um texto em que são descritos alguns animais que não eram comuns na Europa, como o Leão. O Physiologus narra uma história alegórica em que os animais vão aparecendo em sequência e são descritos. Esse texto mistura animais reais com os imaginários, como a fênix e o unicórnio. O Physiologus era um manuscrito muito popular e importante, sendo traduzido para diversas línguas ainda no século IV, para se ter uma ideia, o Physiologus é datado do século II d.C.

Na Era Medieval, os manuscritos iluminados, ou seja, textos decorados que muitas vezes contém imagens sobre o fato narrado na página (ou fólio). Esses manuscritos eram ornamentados com folhas de ouro, e se tornou uma arte que marcou a Idade Média. Portanto, os manuscritos que contêm descrições sobre animais, e que foram inspirados no Physiologus se chamam Bestiários.

Os bestiários medievais reuniam a descrição do animal, além do seu significado espiritual e religioso. Esses escritos também continham narrativas sobre a moral cristã; o unicórnio e a Virgem Maria, por exemplo, eram associados à Paixão de Jesus Cristo. O fato dessa representação aparecer com dois caçadores na imagem abaixo, significa traição.

Bestiário Workshop, Wikimedia Commons/domínio público.

Um desses bestiários mais famosos é o Bestiário de Abardeen. Esse manuscrito iluminado, datado do século XII d.C, foi escrito na Inglaterra sendo considerado por alguns uma cópia de outro bestiário, o Bestiário de Ashmole. Como os dois manuscritos possuem algumas representações idênticas, existe essa convicção de que um é cópia do outro, porém outros estudiosos pensam que tanto o Bestiário de Abardeen quanto o de Ashmole foram escritos pelo mesmo artista, mas sem cópia.

A pessoa que encomendou esse compêndio permanece desconhecida, porém se sabe que o Bestiário de Abardeen foi adquirido pelo rei Henrique VIII, pois existe um carimbo de propriedade do Rei. Enfim, sabe-se que o patrocinador desse manuscrito iluminado provavelmente possuía muito dinheiro, pois os materiais utilizados foram folhas de ouro e pigmentos caros como o azul ultramarino, um pigmento retirado de uma pedra semipreciosa conhecida pelo nome de lápis lazúli.

Um dos fólios do Bestiário de Abardeen retrata o episódio bíblico em que Adão nomeia os animais.

Como podemos ver na imagem acima, Adão está sentado no alto da folha, em uma espécie de apoio, os animais que ele nomeia estão em grupos separados por quadradros. Na Idade Média existe uma classificação que separa os animais entre quadrúpedes, cobras, vermes, pássaros e peixes, e também os animais da fazenda e os domésticos. O fundo desse manuscrito foi feito com folhas de ouro.

Temos a representação de diversos animais no Bestiário de Abardeen, um são reais e outros são mitológicos. Um dos fólios desse manuscrito mostra a figura de um Leopardo:

Não é uma representação fiel ao leopardo, pois devido à inclusão de narrativas bíblicas e sobre a moral cristã, os animais tem uma qualidade humana, ou estão inseridos em situações puramente humanas. Como aparece na iluminura acima, o leopardo retratado tem feições humanizadas.

No bestiário de Abardeen também existe a representação dos chamados animais imaginários ou mitológico. Como a figura do Sátiro:

O sátiro é uma besta mitológica que tem uma parte humana e outra animal. Nessa iluminura o sátiro aparece andando em duas pernas, com dois chifres e feições humanas. A figura do sátiro tem origem na mitologia grega, como boa parte dos bestiários, o de Abardeen também tem origem no Physiologus, por isso algumas criaturas da mitologia grega se encontram inseridas nesses bestiários.

Uma das figuras mitológicas mais importantes na Idade Média eram os unicórnios. Criaturas com forma de cavalo que possui um longo chifre. O bestiário de Abardeen também retratou o unicórnio.

A figura retratada acima é um unicórnio, com um chifre bem longo, existe nessa iluminura o fundo dourado feito com folhas de ouro e uma espécie de moldura feita em azul ultramarino. O unicórnio é uma figura ligada a diversas lendas.

Os bestiários também descrevem figuras de animais e seus hábitos, o Bestiário de Rochester tem uma iluminura muito interessante que mostra os ouriços pegando uvas para levar para os filhotes.

Os Bestiários são um dos manuscritos mais importantes da Idade Média, as representações sobre seres fantásticos começou nesses textos iluminados. Muitos desses seres fantásticos que são mostrados nos Bestiários são usados para fazer jogos, séries e filmes. Além da importância de retratar a vida selvagem na Idade Média.

Compre meu e-Book na Amazon:

Um comentário em “Bestiários: como os antigos catalogavam animais

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.