Graffiti, vandalismo ou arte?

O Graffiti é um desenho ou escrita desenhada sobre uma superfície com permissão ou não. No conceito moderno do termo, o graffiti(ou grafite em português) é considerado uma arte de rua e por isso sofre de preconceito pois a arte não se encontra dentro de uma galeria sendo exposta para um público seleto. Geralmente as pinturas feitas no grafite são feitas em locais abandonados e/ou públicos, como interiores de algum prédio abandonado. Os locais públicos são geralmente os muros, pontes, as vezes um local de difícil acesso.

Graffiti em local abandonado. (Pixabay)

Na antiguidade o grafite em forma de inscrições tinha outro tipo de conotação. Pois antigamente o ato de leitura e escrita era algo que somente pessoas de determinadas classes possuíam o domínio. Existem inscrições feitas pelos construtores dentro da pirâmide de Quéops no Egito (Sim, infelizmente não foram os extraterrestres que construíram as pirâmides, foram trabalhadores bem alimentados). Também há inscrições feitas pelos romanos na cidade de Pompeia.

Caricatura de um político em Pompeia.

Contexto histórico e cultura hip hop

As formas de grafite contemporâneo se relacionam à cultura hip hop que surgiu nos anos de 1970. O grafite é um dos pilares da cultura hip hop. A partir deste momento começou a ser utilizado as tintas em spray. O grafite também é associado ao punk rock. A arte do graffiti ligada ao movimento hip hop se iniciou na cidade de Nova Iorque principalmente no metrô desta cidade.

Graffiti feito na década de 1970.

Artistas como Phase 2 e Flint fundaram a Union of Graffiti Artists. O arista do grafite, Phase 2, é responsável pela criação da letra em forma de balão que é muito utilizada atualmente.

Phase 2.

Outros grafiteiros também fizeram parte da cultura do Hip Hop e que participaram do movimento que fez grafite nos metrôs de Nova Iorque ficaram famosos internacionalmente, um destes artistas é o Donald Joseph White, mais conhecido como Dondi. Este artista é o responsável por muitos dos estilos e técnicas utilizadas no grafite hoje em dia. Na década de 1970, Dondi fazia parte do grupo de grafiteiros Crazy Inside Artists. Dondi morreu de AIDS no ano de 1998, mas deixou um grande legado artístico.

Graffiti feito por Dondi.

Na década de 1980 os grafites no metrô são reprimidos e por isso outros lugares são utilizados como superfície para fazer graffiti. Então, esta arte polêmica deixa de ser somente um fenômeno de Nova Iorque e passa a se espalhar para outras cidades norte-americanas como Houston, Los Angeles e Chicago. Por causa da origem popular deste novo grafitismo essa arte começa a ser vista como apenas vandalismo.

Em 2008 uma exposição de arte de graffiti foi feita dentro de uma galeria de arte no National Portrait Gallery do Smithsonian Institution.

Exposição de Graffiti em 2008 no Smithsonian Institution.

Não foi a primeira vez que a arte do grafitti ligada ao hip hop ganhou uma exposição dentro de uma galeria. No ano de 1981, Patti Astor e Bill Staling fundaram a FUN Gallery, uma galeria dedicada à artistas de rua do Graffiti. Astor conhecia muitas pessoas ligadas ao movimento cultural do hip hop e arstistas punks. Esta galeria reuniu artistas como Dondi, Fab Five Freddy, Futura 2000, etc.

Patti Astor na Fun Gallery. Foto: Eric Kroll.

No período de 1980/90 surge o graffiti estêncil, que utiliza um molde, normalmente feito de papelão e tinha em spray pra transpor as imagens na superfície em que se quer pintar. É uma técnica que permite reproduzir imagens mais rapidamente do que por meios convencionais.

O artista grafiteiro Tavar Zawacki, mais conhecido como Above, utiliza a técnica do graffiti stencil nas suas obras de arte. Above é um artista reconhecido mundialmente.

Graffiti stencil do artista Above By Hdepot (talk) – I (Hdepot (talk)) created this work entirely by myself., CC BY-SA 3.0, https://en.wikipedia.org/w/index.php?curid=26962865

A partir dos anos 2000 o graffiti se torna popular, e é usado até mesmo comercialmente para campanhas publicitárias de grandes marcas como a IBM que fez uma campanha utilizando o graffiti para divulgar o Linux.

Graffiti X Pixação, a classificação elitista brasileira

No Brasil criaram um jeito de diferenciar o graffiti feio do bonito, pixação e “graffiti verdadeiro”. A pixação é o graffiti na sua forma mais simples, utilizando somente uma cor, somente com palavras ou desenhos mais rudimentares, que é associado à periferia. No Brasil a periferia concentra as populações mais pobres, enquanto as regiões centrais são para os mais ricos*.

Pixação. Está escrito em tradução livre: I’ve made this graffiti other side of this wall because the street it’s ours.(facebook)

O graffiti colorido, mais elaborado, com desenhos, é considerado o graffiti verdadeiro, aceito socialmente**. Essa distinção é para classificar qual graffiti será apagado e qual será mantido.

Graffiti “verdadeiro” – mais elaborado e colorido. (Pixabay)

Na cidade de São Paulo, o político João Doria, quando era prefeito da cidade sancionou uma lei anti-pixação, que multa as pessoas responsáveis por essas “pixações”(graffiti considerado feio pela população rica no Brasil) e pode até mesmo levar à prisão. É o fenômeno da elitização de uma arte que originalmente veio das populações afro-americanas marginalizadas em Nova Iorque. Mas isto é um algo completamente brasileiro, em nenhum lugar do mundo existe essa classificação e apropriação da arte pelos mais ricos (com sucesso, deve haver tentativas disto em outros países).

Arte ou vandalismo?

Se o Graffiti é vandalismo ou arte é uma discussão que envolve as origens desta arte, quem são os artistas, quanto mais puder ser colocado dentro de galerias de arte, mais artístico o graffiti é. Quanto mais esteticamente mais simples, feito em lugares marginais, públicos mais tende a ser considerado vandalismo pelas pessoas.

A questão sobre ser feito em lugares autorizados ou não também depende da estética do graffiti. Se é considerado bonito, elaborado então o graffiti pode ficar, se o artista for famoso então a arte pode ficar mas se não se encaixa nestes critérios então ele é apagado.

Alguns podem achar certos graffiti como poluição visual, mas um lugar em que existem vários outdoors com propagandas publicitárias também fica visualmente poluído.

O graffiti pode ser considerado vandalismo quando é feito sobre outra obra de arte original. Por exemplo, fazer o graffiti em cima de uma cópia da Monalisa é diferente de fazer isso na Monalisa original. Mesma coisa em estátuas porque são obras de arte.

Graffiti na Monalisa. (pixabay)

Algumas vezes esta discussão sobre se graffiti é arte ou vandalismo tem que ser discutida em cada caso. Uma arte de rua feita em locais não permitidos explicitamente ou implicitamente vai depender do contexto, como aconteceu no caso do graffiti feito no Muro de Berlim (que foi posteriormente derrubado).

Graffiti no Muro de Berlim. (wikipedia)

O muro de Berlim não era um local permitido explicitamente para fazer graffiti, mas no lado ocidental este muro ficou cheio destes graffiti. É diferente de um graffiti feito no muro de uma casa, em certos prédios públicos.

Por causa destes diferentes contextos a questão sobre o graffiti ser arte ou vandalismo é uma discussão ainda em aberto. E aí? O que você acha? Deixe nos comentários sua opinião.


*Em São Paulo, por exemplo, os imóveis pequenos simples mais numa região central desta cidade chega a custar de 300 mil dólares a um milhão de dólares, é um fenômeno que acontece por causa da especulação imobiliária e desigualdade social que é altíssima no Brasil.

**Pessoalmente sou contra essa classificação brasileira sobre o graffiti.

Referências:

https://www.arts.gov/stories/magazine/2013/2/ahead-their-time/patti-astor-and-fun-gallery

7 comentários em “Graffiti, vandalismo ou arte?

  1. Aqui onde moro, o grafite tem ganho cada vez mais espaço. Verdadeiros “murais” têm sido criados, obras de arte repletas de significado.
    Ao contrário de ti, no entanto, para mim existe sim diferença entre grafite e pichação. Mas não tanto pelo uso das cores ou a simplicidade, mas pelo modo como ela vem utilizada.
    Vou dar um exemplo: Ao lado da nossa casa tem um longo muro . Um dia, alguns jovens “grafitaram” ele todinho. A mesma coisa debaixo de um viaduto, sempre perto de onde moro. Talvez nem todos os desenhos ou escritos sejam do meu gosto (esteticamente falando), mas são manifestações de arte. (Inclusive uma frase num muro, é arte)
    Agora, quando alguém pega um spray e escreve ou risca “por cima”, estragando o trabalho dos outros , ou enche paredes de residências privadas com símbolos ilegíveis, desenhos ofensivos e palavras de baixo calão. Aí, tu vais me desculpar, mas não é arte, é vandalismo. E a isso eu dou o nome de pichação.

    Ah…e algumas pinturas/desenhos acredito sejam manifestações ligadas à saúde mental. (Ou são artistas buscando um reconhecimento?)
    Por exemplo… certa feita, apareceram, espalhados pelos muros da cidade, desenhos de um peixe . Várias cores, vários tamanhos, mas sempre o mesmo peixe .
    Outro exemplo? Desde criança, nos anos 80, eu via , em Porto Alegre, pelos muros da cidade, o escrito: Toniolo. Quem nunca ficou curioso em saber quem era o tal Toniolo? (Falo obviamente de quem viveu por lá entre os anos 80 e 2000)

    Enfim. Pra resumir, eu acho que grafite e pichação são diferentes sim. E que a primeira deveria ser incentivada.

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  2. Graffiti is a more negative form of artwork in America– usually either vulgar or gang-related. However, even abstract mural artwork, when done tastefully, is an accepted artform.
    Art

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  3. Interesting topic. Whatever graffiti’s purpose may be depending on the situation and the person, it is a recording of someone’s humanity not dissimilar to the cave drawings of our past. There is a certain beauty that exists within the sharing of one’s humanity. We all live in the same world and yet often feel/see quite differently.

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  4. Here in Sacramento, California, we have two events that celebrate art on walls and sidewalks. Wide Open Walls invites artists to paint murals on buildings. These are beautiful and I’ve photographed many. The other is a celebration that takes place in a park on the surrounding sidewalks. Painters use chalk to create their art works. Unfortunately weather and foot traffic takes its toll on the art.

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  5. Um bom e útil artigo. Aqui na minha cidade, em Portugal, com alguma miséria e desemprego, há excelentes murais e fachadas de prédios pintados, autênticas obras primas, mas o que me irrita são as assinaturas, algumas delas a escorrer de propósito, em qualquer lado, lojas e casas pintadas à pouco tempo, em revestimentos de pedra, que não pode ser limpo facilmente, e também as de natureza agressiva, transmitindo um clima um pouco stressante, quando, no meu ponto de vista, uma cidade deseja-se harmoniosa e convidativa, incluindo as zonas de habitação social, onde aqui se esforçam, para que as pessoas cuidem e embelezem o seu bairro.

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